Temperamento equilibrado não é sorte
- Rita Izabel de Oliveira
- 28 de jan.
- 4 min de leitura
Atualizado: 29 de jan.
Vou te contar uma cena comum:
Alguém vem conhecer um Yakutian Laika do Queens. O cachorro está ali: curioso, tranquilo, observa, chega perto, se afasta, deita no chão como quem diz “tô bem aqui”.
E então vem a frase:
“Nossa… como eles são tranquilos, realmente a raça é muito calma.”
Eu sempre sorrio. Não por educação — mas porque, apesar de sim, a raça ser tranquila, eles não vem de fábrica totalmente prontos. O ambiente influencia demais no temperamento, mesmo existindo as tendências da raça. Quando as pessoas conhecem um cão equilibrado, elas veem o resultado final de um trabalho imenso.
A contribuição da raça para o temperamento está inteira na genética. Essa história começou antes mesmo do filhote nascer, na verdade começou a muitos e muitos anos atrás.
O Yakutian foi escolhido por séculos por sua eficiência metabólica, ou seja: sua capacidade de entregar o máximo quando necessário, e economizar energia quando não for necessário. Por isso eles tem energia para correr por quilômetros, mas se não precisarem correr, descansam. Essa característica foi passada geração a geração e faz dos Yakutians cães de energia moderada.
E ainda, por serem cães que precisavam trabalhar em equipe, foram selecionados por essa habilidade. Os cães não conseguiam ter um bom relacionamento com os demais não eram acasalados. Hoje podemos ver isso na capacidade desses cães de comunicação com outros cães e na conexão que criam com seus humanos. E por esse pacotinho genético moldado pela história, vemos hoje um cão tranquilo e equilibrado.
Ainda hoje, para preservar essa característica (que na minha humilde opinião, é o melhor do Yakutian Laika), os criadores cuidam carinhosamente:
das escolhas de acasalamento feitas, pensando também no temperamento;
a vida dos cães do plantel, priorizando o melhor desenvolvimento possível do temperamento pensando em epigenética (posso fazer um post sobre isso).
muitas vezes tomamos decisões difíceis para priorizar temperamento acima de estética
Então sim, o temperamento começa na genética…
Mas a genética não cria personalidade pronta
Sempre nasce um filhote com um pouco mais de energia, ou mais teimoso, mais desafiador. Aí vem outro comentário clássico: “Ah, mas esse aí nasceu assim.”
Mais ou menos.
A genética não entrega um cachorro pronto. Ela entrega um intervalo de possibilidades. Ela define se aquele cão terá mais ou menos facilidade para:
lidar com frustração
se recuperar de sustos
manter estabilidade emocional
se adaptar a mudanças
Scott e Fuller já mostravam décadas atrás que traços como medo, impulsividade e sociabilidade têm influência genética — mas só ganham forma no ambiente (Genetics and the Social Behavior of the Dog).
Ou seja: genética abre a porta, mas o ambiente influencia. A genética é a massinha de modelar, e o ambiente tem o poder de transformar e dar forma. Ou seja: o temperamento do cachorro será uma construção.
Por isso é muito importante cuidar do ambiente que os filhotes vão viver. Socialização, passeios, estímulos mentais são a chave para desbloquear o Yakutian Laika dos sonhos. Em cães mais velhos, também é possível contornar alguns problemas de comportamento, porém requer mais paciência.
O que acontece quando o filhote deixa o canil
Aqui entra a parte menos glamourosa da história. O filhote chega em casa. E, junto com ele, uma lista invisível de expectativas humanas:
“precisa socializar cedo”
“tem que gastar energia”
“não pode ficar entediado”
E para mim, a pior de todas: “a raça é tranquila e equilibrada”.
Apesar de ser verdade, essa frase cria uma crença de que esse cachorro vai precisar de muito pouco para ser tranquilo e equilibrado, e isso não é verdade. O Yakutian Laika também tem necessidades, precisa socializar com cuidado, gastar energia, precisa de rotina.
Na prática, isso pode virar:
estímulo demais, passeio demais, informação demais para um cérebro que ainda está se formando, julgando que ele aguenta porque é equilibrado.
ou tudo de menos, por achar que ele chega pronto de fábrica.
O cachorro não fica equilibrado. Ele fica ligado o tempo todo, em ambos os casos.
Do ponto de vista biológico, isso é previsível: excesso de estímulos ativa o sistema de estresse e dificulta a consolidação emocional (McEwen, Stress and Adaptation). Mesma lógica para a ausência de estímulos: se você não dá nada pro filhote fazer, ele vai procurar o que fazer - artes e destruição começam a se tornar rotina.
O capítulo que quase ninguém quer ler: o básico Aqui vai uma verdade simples, dessas que ninguém gosta muito: antes de falar em temperamento, comportamento ou treino, o cachorro precisa ter o básico resolvido.
Básico mesmo:
comida adequada (não só “qualquer ração”)
água sempre disponível
sono de verdade — sem interrupção o tempo todo
descanso aprendido (sim, descansar também se ensina)
exercício diário compatível com a idade
estímulo mental suficiente para não viver frustrado
Quando isso não existe, o que aparece não é “mau comportamento”. É um pedido de socorro, e nenhum treino resolve um pedido ignorado.
Energia média não é cachorro desligado
Um Yakutian Laika equilibrado não é um cachorro parado. Ele corre, brinca, se anima. Mas também sabe parar, sabe esperar, sabe descansar.
Essa capacidade de alternar entre excitação e calma é um dos principais indicadores de bem-estar canino (Overall, Clinical Behavioral Medicine for Small Animals).
Calma não vem de cansaço. Vem de segurança, da rotina regrada, das necessidades supridas. O segredo do equilíbrio é ter hora pra tudo, inclusive pra extravasar energia.
Então… não, não foi sorte
Yakutian Laika equilibrado é o resultado de:
centenas de anos de seleção dessas características
genética escolhida com critério
respeito as fases de desenvolvimento cognitivo
educação/ adestramento
necessidades atendidas
expectativas humanas ajustadas
Nada disso acontece por acaso. É uma soma de todos esses fatores. E é assim que criamos nossos Yakutian Laika no Queens of the North. Sem promessas mágicas, sem atalhos. Mas com muito trabalho e muito amor.
Queens of the North.
Rita Oliveira




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