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O que não está escrito no pedigree...

Quando alguém começa a procurar um filhote, além da preocupação com a saúde (que está fora da discussão de hoje, pelo menos por enquanto), quase sempre a conversa gira em torno de certas coisas: raça (ou sem raça), linhagem, pedigree, títulos. Mas, honestamente, para 95% dos futuros responsáveis, isso é o que menos vai mudar a vida prática com o filhote. E vou te explicar por quê.



Não vou dizer que tudo isso não é importante; nós levamos muito a sério por aqui. Mas existe uma parte da história de cada cão que não vai aparecer nos papéis. Não vem escrita no pedigree e, ainda assim, molda profundamente quem aquele cão será ao longo da vida. Tem o poder de influenciar diretamente no comportamento, que sim, é a parte que mais importa para 95% dos futuros responsáveis (mesmo que eles não saibam disso ainda). E o melhor: é cientificamente comprovado, com muitos estudos disponíveis a respeito.


A Importância do Temperamento


Depois da saúde física, o temperamento e o comportamento são os pontos mais importantes para quem procura um filhote. Sabemos disso porque são eles os motivos que lideram as devoluções de cães de raça a seus canis de origem.


A família que opta por um cão de raça espera previsibilidade no comportamento. Assim, pode estudar como lidar com o cão e se preparar para o que virá. Mas existe um fator que vai se somar à genética e terá um impacto significativo em como esse cachorro vai se comportar. Esse fator pode transformar o comportamento do cão para algo que simplesmente não está descrito em nenhum site especializado.


O Que é Epigenética?


Esse detalhe se chama epigenética. E você não vai encontrar em nenhum documento fornecido pelo canil nada que te fale sobre isso quanto ao teu filhote (eu acredito que, inclusive, essa deve ser a primeira vez na vida que você leu essa palavra, estou errada?). Sobre esse assunto, o que faz sentido é que você se mantenha informado sobre o que é, para que possa identificar as melhores condições possíveis quanto ao teu futuro filhote.


Tentando explicar de forma simples, epigenética é um conjunto de mecanismos biológicos que regulam quais genes são ativados ou silenciados, em que intensidade e em que momento da vida. Esses mecanismos não alteram o DNA, mas funcionam como interruptores, reguladores de volume, marcas químicas que dizem ao organismo como usar aquela informação genética.


O mais interessante é que essas marcas são sensíveis ao mundo real. Elas respondem à nutrição, ao estresse, à previsibilidade do ambiente, às experiências emocionais, ao vínculo materno, à socialização, ao cuidado... ou à falta de tudo isso. Isso significa que dois cães com a mesma genética podem se tornar adultos completamente diferentes se forem submetidos a situações diferentes. Não porque “um deu sorte” e o outro não, mas porque a vida deixou marcas diferentes em cada um.


Como a Epigenética Influencia o Comportamento


Durante muito tempo, acreditamos que os genes eram uma espécie de destino imutável. Que um cão “nascia assim” e pronto. Hoje, a ciência mostra algo muito mais bonito — e também mais responsável: os genes são apenas o começo. O modo como eles se expressam depende do ambiente, das experiências e das relações que cercam aquele cão desde antes do nascimento. É como se a genética fosse o texto de um livro, e a epigenética fosse as marcações em marca-texto coloridas, dizendo o que é bom e o que não precisa ser usado. As palavras são as mesmas, mas o significado muda completamente dependendo de qual cor usamos ao destacá-las.


A Importância da Criação Responsável


Porque a epigenética é tão importante na criação responsável? Cães são especiais não apenas por viverem ao nosso lado, mas porque compartilham conosco o nosso ambiente o tempo todo. Eles respiram o mesmo ar, vivem os mesmos ritmos, sentem o impacto do estresse humano, da rotina, das emoções da casa. E poder viver com eles de maneira tão intensa é com certeza culpa de muita epigenética que se acumulou por gerações.


Estudos que compararam cães domésticos e lobos mostraram algo fascinante: a domesticação não foi apenas um processo de seleção genética, mas também um fenômeno profundamente epigenético. Genes ligados a sistemas biológicos que influenciam no comportamento, sociabilidade e adaptação ao convívio humano passaram a ser regulados de forma diferente.


A epigenética ajudou a transformar um animal selvagem em um companheiro capaz de ler emoções humanas, criar vínculos profundos e viver em ambientes complexos como nossas casas. Em outras palavras, não foi só o corpo do cão que mudou ao longo da história, mas a forma como seus genes passaram a “responder” ao mundo.


Além disso, as raças caninas são geneticamente muito homogêneas. Dentro de uma mesma raça, o DNA muda pouco. Mas se isso é verdade, por que cães da mesma ninhada podem ser tão diferentes? Essa é uma das perguntas mais comuns e uma das mais reveladoras. Na verdade, essa homogenidade toda faz com que as diferenças epigenéticas se tornem ainda mais evidentes.


Mesmo dentro da mesma ninhada, cada filhote vive experiências ligeiramente diferentes. A posição no útero, o nível de estresse da mãe em determinados momentos da gestação, o acesso ao leite, as interações com irmãos, o manejo humano, o tipo de estímulo recebido nas primeiras semanas… e tudo isso conta.


Pesquisas recentes mostraram que padrões epigenéticos conseguem prever traços de comportamento como medo, nível de energia, sociabilidade e resposta ao estresse com mais precisão do que algumas análises genéticas tradicionais. Isso não significa que a genética deixou de importar, mas que ela não atua sozinha.


O Impacto do Ambiente na Gestação


Um ponto fundamental da epigenética que muitas vezes é ignorado é que o filhote começa a ser moldado enquanto ainda está no útero da mãe. E eu não estou falando da parte óbvia que é o corpinho... falo aqui do comportamento.


Já sabemos com bastante segurança que o ambiente emocional e fisiológico da mãe durante a gestação e a maternagem tem impacto mensurável nos filhotes. Estudos em neurociência comportamental mostram que o estresse da mãe durante a gestação pode alterar a regulação do estresse nos filhotes, por meio de modificações epigenéticas.


O corpo da mãe envia sinais constantes ao feto. Tudo o que ela sente, ele sente. Os mesmos hormônios que vão circular na corrente sanguínea da mãe vão passar para os bebês. Esses sinais ajudam o organismo em formação a “entender” que tipo de mundo o espera lá fora e, assim, os indicadores começam a se alterar.


Uma mãe submetida a carinho, atenção, boa alimentação e brincadeiras vai manter doses saudáveis de serotonina e ocitocina. Em contrapartida, o cortisol (que é responsável pelo estresse) se mantém muito próximo do nível basal, o que é esperado e super saudável. Isso ensina o feto que ele está vindo para um bom lugar. Já uma mãe exposta a estresse (seja estresse constante ou um grande pico de estresse) ensina, através de níveis elevados de cortisol e pouca serotonina, que talvez ele não seja bem recebido aqui fora. E isso tem consequências nesses filhotes.


Um ambiente previsível, seguro e respeitoso tende a preparar filhotes mais resilientes. Um ambiente caótico, estressante ou instável tende a ativar sistemas biológicos de alerta que podem permanecer ativos por toda a vida. Isso não é alarmismo, é biologia. Cuidar da mãe, respeitar seus ciclos, evitar estresse desnecessário, oferecer nutrição adequada e permitir que ela viva a maternidade com tranquilidade não é mimo — é base epigenética de saúde tanto física como emocional.


Herança Epigenética


Além de tudo isso, essas experiências não criam impacto só nesses filhotes: elas podem durar gerações. Durante muito tempo, acreditamos que cada nova geração começava do zero. Que apenas o DNA passava de pais para filhos, e que tudo o que vinha depois era uma nova “folha em branco” esperando para ser colorida. Hoje, a biologia nos conta uma história um pouco mais complexa.


Estudos em diferentes espécies mostram que os pais não transmitem apenas genes, mas também sinais biológicos associados às suas próprias experiências. Essas marcas não mudam o DNA, mas podem influenciar como determinados genes serão regulados nos filhotes pela epigenética. Esse fenômeno é chamado de herança epigenética intergeracional e, em alguns casos mais raros e ainda muito debatidos, transgeracional.


Apenas para deixar claro, em mamíferos, como os cães, a maioria das evidências mais sólidas se refere à influência direta da mãe (e, em menor grau, do pai) sobre a próxima geração, especialmente através do ambiente gestacional, da qualidade do cuidado materno e das condições fisiológicas no momento da reprodução. Esse tipo de efeito é chamado de intergeracional, porque o filhote é exposto diretamente a esse ambiente ainda em formação. Em outras palavras: o filhote não herda “memórias”, mas pode herdar uma forma diferente de regular sistemas importantes, como resposta ao estresse, metabolismo e desenvolvimento neural.


Há também evidências, principalmente em modelos animais e em espécies domésticas como ovinos e roedores, de que determinadas marcas epigenéticas associadas a nutrição, estresse ou ambiente podem persistir por mais de uma geração. Em cães, esse campo ainda está em desenvolvimento, mas os mecanismos biológicos envolvidos são muito parecidos entre as espécies de mamíferos, o que significa que muito provavelmente vão funcionar de maneira parecida. Ou seja: cães expostos a um ambiente de estresse constante ou traumas profundos têm alta probabilidade de também passar esses indicadores a mais de uma geração.


O Que Tudo Isso Muda na Criação Responsável?


Muda a pergunta central. Criar deixa de ser apenas “produzir filhotes” e passa a ser assumir responsabilidade pelo começo da vida de outro ser. A epigenética mostra que o criador não é apenas um selecionador genético, mas parte ativa da construção do equilíbrio emocional, comportamental e até fisiológico do cão. Isso exige conhecimento, ética, humildade e respeito aos processos naturais. Exige entender que nem tudo pode ser acelerado, controlado ou padronizado.


Quando falamos em responsabilidade, não estamos falando apenas de escolher bons cruzamentos ou realizar exames genéticos. Estamos falando de cuidar do contexto em que a vida acontece. De cuidar da qualidade de vida dos cães de reprodução, respeitar o tempo da fêmea, evitar estressores desnecessários e não transformar reprodução em produção.


Essas escolhas não afetam apenas aquela ninhada — elas influenciam a base biológica com que esses filhotes começam a vida e podem influenciar inclusive gerações futuras. A epigenética nos lembra que criar é um ato que ecoa. Mesmo quando as marcas não atravessam múltiplas gerações de forma estável, elas definem o ponto de partida da próxima, e o ponto de partida muda tudo.


Criar com consciência é reconhecer que cada decisão — ambiente, manejo, ritmo, respeito aos ciclos — deixa marcas invisíveis, mas reais e perceptíveis. Marcas que não aparecem no pedigree, mas que acompanham o cão ao longo da vida, influenciando como ele sente, reage, aprende e se vincula. No fim, a ciência apenas confirma algo simples e profundo: cuidar bem hoje é uma forma de proteger o amanhã.


O Que Isso Muda para Quem Vai Adquirir um Cão?


Escolher um cão passa a ser escolher como essa história começou. Passa a ser entender que o filhote que chega à sua casa já carrega vivências, marcas e aprendizados, e que você continuará escrevendo essa história todos os dias. Ao escolher um canil que se preocupa com isso e que entende a influência do começo da vida do cão, você começa melhor a sua própria história com seu filhote.


Filhotes nascidos de cães que tiveram todas as suas necessidades básicas atendidas, foram mentalmente estimulados, viveram uma vida afetiva e foram amados vão ser filhotes diferentes. Esses filhotes serão emocionalmente mais abertos e corajosos, mais resilientes, mais treináveis. São filhotes mais fáceis e, obviamente, mais previsíveis quanto ao temperamento. Escolher um canil que se preocupa com tudo isso é escolher o melhor ponto de partida para sua vida com seu cachorro.


Criar, para nós, nunca foi apenas sobre reproduzir. Sempre foi sobre responsabilidade. Hoje, a epigenética apenas dá nome científico àquilo que sempre acreditamos: criar cães é assumir responsabilidade pelo começo, pelo meio e por tudo o que vem depois na vida de nossos filhotes. Criar é cuidar pra vida toda.


A epigenética nos lembra que o vínculo importa, que previsibilidade importa, que respeito importa. A epigenética é a natureza nos ensinando que tudo deixa marcas. O modo como vivemos com nossos cães literalmente molda quem eles se tornam e o que seus filhotes vão se tornar. E não sou eu quem estou falando não, é ela: a ciência. Ela não tira a poesia da vida, ela apenas nos mostra que cuidado, ética e amor não são opcionais, mas sim marcas permanentes.


Fontes de estudo:

  • Sundman, A.-S., Pértille, F., Lehmann Coutinho, L., Jazin, E., Guerrero-Bosagna, C., & Jensen, P. (2020). **DNA methylation in canine brains is related to domestication and dog-breed formation**. PLOS ONE, 15(10), e0240787.

  • Sanders, A. R., Bhongir, N., vonHoldt, B. M., & Pellegrini, M. (2022). **Association of DNA methylation with energy and fear-related behaviors in canines**. Frontiers in Psychology, 13, 1025494.

  • Kizilaslan, M., Braz, C. U., Townsend, J., et al. (2025). **Transgenerational epigenetic and phenotypic inheritance across five generations in sheep**. International Journal of Molecular Sciences, 26(13), 6412.

  • Mbiydzenyuy, N. E., Hemmings, S. M. J., & Qulu, L. Q. (2022). **Prenatal maternal stress and offspring aggressive behavior: Intergenerational and transgenerational inheritance**. Frontiers in Behavioral Neuroscience, 16, 977416.

  • Cao‑Lei, L., Laplante, D. P., & King, S. (2016). **Prenatal maternal stress and epigenetics: Review of the human research**. Current Molecular Biology Reports, 2, 16–25.

  • Bird, A. (2024). **Transgenerational epigenetic inheritance: a critical perspective**. Frontiers in Epigenetics and Epigenomics, 2, 1434253.

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