Afinal, cachorro é Carnívoro ou não?
Sabe o que pra mim é pior? Essa é uma pergunta polêmica nos dias de hoje. E não me pergunte por quê! Pra mim não deveria ser nada polêmica. É uma questão 100% científica (e consensual). Lá no final, vamos falar sobre a polêmica envolvida... agora a sra. Rita aqui vai focar em responder o mais cientificamente possível (dentro das minhas limitações) essa pergunta.
ATENÇÃO: tudo o que estou escrevendo aqui tem como base meus estudos , minhas pesquisas, artigos que li, profissionais com quem conversei e toda a minha experiência com meus cães. E sim, posso estar errada ou não ter 100% das informações. Caso você queira educadamente discordar, os estudos que eu considero estão todos citados no final deste artigo, me envie os estudos que dão base a teu raciocínio e poderemos conversar educadamente, ok?
Se você já pesquisou sobre alimentação canina, procurando o melhor para o seu cão, provavelmente encontrou duas respostas completamente opostas:
De um lado: “Cachorros são carnívoros, precisam de carne e apenas carne está ótimo.”
Do outro: “Cachorros são onívoros, podem e devem comer de tudo.”
Certeza que você, inclusive, encontrou veterinários defendendo várias coisas diferentes. Eu sei por que eu também já encontrei, e acaba ficando difícil até de confiar, já que entre eles não existe um consenso (pelo menos não na frente de batalhas do instagram).
Mas na verdade, existe sim um consenso ciêntifico. E aqui está o grande problema: as duas respostas estão incompletas (você não esperava por essa, não é mesmo?). E quando uma decisão importante como a alimentação de um cão é baseada em simplificação de um conceito, é um risco silencioso e progressivo, muitas vezes, irreversível. Então vamos fazer uma coisa: voltar para a origem, entender a evolução e só então falar de alimentação.
Antes de tudo: de onde o cachorro veio?
O cachorro doméstico, cientificamente conhecido como Canis lupus familiaris, é uma subespécie direta do Canis lupus (sim, cachorro é uma subespécie de lobo... não vou entrar nessa discussão agora porque também dá material pra guerra, mas talvez em outro post).
E falando no lobo, não tem espaço para debate: ele é um carnívoro predador. E isso não é um comentário baseado na minha opinião pessoal, ou das vozes da minha cabeça... é a mais pura anatomia. Os lobos têm caninos cumpridos e afiados e são capazes de rasgar a carne das presas, caçam presas grandes, consomem tecidos musculares e vísceras e ingerem ossos, gordura e conteúdo gastrointestinal das presas, tem um intestino mais curto, o que dificulta a digestão de certos carboidratos. Ou seja: a dieta natural deles é rica em proteína e gordura animal, com ingestão indireta mínima de vegetais (quando a presa ainda não terminou a digestão dela e ainda tem coisa na barriga).

Falamos aqui da anatomia e do comportamento alimentar do lobo, e se existe uma forma objetiva de entender a dieta de uma espécie, é olhando para o corpo dela. O que o corpo dela foi feito para consumir? No caso dos cães, tudo aponta na mesma direção:
Dentição dos cães: Caninos longos para perfurar e segurar presas, dentes carniceiros (carnassiais) para cortar carne como uma tesoura; pouca superfície para moagem (diferente de herbívoros). Sistema digestivo: intestino relativamente curto e pH estomacal ácido (capaz de lidar com carne crua e bactérias). Comportamento alimentar: Predação, mastigação rápida, consumo de grandes porções.

Todas essas características são típicas de carnívoros, óbvio. Então até aqui, tudo parece muito simples e óbvio: o cachorro é carnívoro! Óbvio!
Eis meus amigos, que essa história começa a ficar interessante. Afinal os cães têm uma história completamente diferente dos lobos, fato que é impossível de ser ignorado e tem SIM mudou a alimentação deles - a domesticação.
Existem muitas teorias sobre como a domesticação aconteceu, mas com base em muitos estudos relacionados ao tema a mais aceita atualmente (e que tem bastante evidência apontando para ser verídica) é a de que lobos menos agressivos começaram a se aproximar de acampamentos humanos. Esses lobos foram atraídos e se alimentavam de restos humanos. Com o tempo, isso gerou a proximidade com os humanos e a seleção natural onde os lobos mais mansos foram ficando cada vez mais próximos e sobrevivendo por mais tempo.

Mas aqui entra o ponto chave: esses restos incluíam amido, que no caso dos lobos estritamente carnívoros, era consumido em baixas quantidades, lembra? Os lobos têm dificuldade em processar o amido. Obviamente muitos lobos devem ter adoecido nesse processo (que deve ter durado centenas de anos), mas essa é a mágica de Darwin: "os mais adaptados, sobrevivem".
Pois em 2013, foi publicado um estudo na revista Nature que trouxe uma das descobertas mais importantes sobre a alimentação dos cães domésticos: cães possuem múltiplas cópias de um gene (AMY2B) que é responsável pela produção de amilase pancreática, enzima que digere amido.
Os lobos tem baixa capacidade de digerir amido justamente porque não possuem muitas cópias desse gene, mas como os cães possuem, eles têm uma capacidade maior de digerir amido. Ou seja: o cachorro evoluiu para se adaptar à nova dieta e poder lidar com carboidratos, tendo como vantagem a segurança de viver perto dos humanos.
Mas isso não significa o que muita gente acha que significa. Adaptação não é transformação, o cachorro não deixou de ser uma subespécie de lobo. O fato de o cachorro conseguir digerir carboidratos não significa que ele se tornou onívoro como humanos, ou que ele não precisa mais de proteína animal (tem gente até defendendo que qualquer coisa funciona).
Não é porque eles evoluíram comendo restos humanos que a dieta deles pode ser humana. O que aconteceu foi uma adaptação metabólica, e não uma mudança biológica. Segundo Zeder (2012), em estudos sobre domesticação: domesticação frequentemente gera flexibilidade alimentar, não substituição completa da dieta ancestral.
Um outro fator importante é: a própria dieta humana mudou muito desde a domesticação dos cães (e nos os últimos 100 anos a comida processada aconteceu). Milhares de anos atrás, os humanos eram uma espécie caçador-coletora, ou seja, caçava e colhia pra comer (nem plantar não plantava). Era uma dieta 100% natural, sustentada apenas por aquilo que a localização possibilitava ter no prato.
Se simplesmente assumimos que o cão evoluiu comendo o que a gente comia, sem sequer parar pra pensar em o que a gente comia, e der pra eles uma dieta baseada no que comemos hoje... nem preciso explicar o tamanho do problema, né? Se nós estamos adoecendo por causa da série de porcarias que comemos, imagina os cães!
Mas depois de tudo isso que falei, afinal, o que o cão é?
A classificação mais correta hoje é carnívoro facultativo. Isso significa que a base é carnívora, mas que ele tem capacidade de utilizar alimentos não animais também. Diferente de carnívoros obrigatórios, como gatos, que precisam de nutrientes exclusivos da carne (como taurina) ou onívoros, como nós humanos, que somos adaptados para dieta mais variada.
O cachorro está no meio disso tudo, porém inclinado para um lado, o lado da carne. Carnívoro facultativo significa que ele pode comer coisas de origem vegetal, mas elas não substituem a carne (de origem animal, carne de tofu não conta).
A partir dessa adaptação, surgiu uma interpretação perigosa (e também a polêmica que não deveria ser polêmica): “se ele pode comer, então posso oferecer que não tem problema”.
E é justamente por causa dessa interpretação incorreta que entram muitos dos problemas modernos de saúde dos cães: obesidade, resistência à insulina, inflamação crônica, problemas dermatológicos, e a lista continua... Dietas ricas em carboidratos e altamente processadas tem relação com incontáveis doenças em cães, justamente porque esquecemos (ou ignoramos) que eles são carnívoros facultativos.
Mas então, cães podem comer carboidrato? Poder até podem, mas essa não é a pergunta certa. A pergunta a se fazer é: em que quantidade e em que contexto? Na natureza, quando um canídeo consome vegetais, ela vem quase digerida (na barriga da presa, como falamos dos lobos), em pequenas quantidades e com muita proteína e gordura junto. Isso é MUITO diferente de dietas ricas em carboidrato.
Depois de dizer tudo isso, ainda posso dizer com total certeza que a proteína animal não é opcional para os cães. Segundo o National Research Council (NRC, 2006), a proteína é essencial para manutenção de tecidos, fornece aminoácidos fundamentais e impacta diretamente sistema imune, musculatura e metabolismo dos cães.
E tem mais: nem toda proteína é igual, e para os cães isso faz toda diferença. Proteínas de origem animal têm maior biodisponibilidade e perfil de aminoácidos mais adequado (lembra o que eu falei do tofu?). Isso significa uma coisa muito importante: teu cachorro não é vegano, mesmo que você seja.
Agora vamos sair da teoria e entrar no que realmente importa. Se você entendeu tudo até aqui, já percebeu que uma alimentação coerente com a biologia do cão deve ter base em proteína animal de qualidade, incluir gordura como fonte de energia, usar carboidratos com cautela. O equilíbrio nutricional dos cães é diferente do humano e a alimentação precisa ser equilibrada pensando neles. Isso pode ser encontrado tanto em dietas naturais como também em rações super premium.
Na prática, o cachorro não deixou de ser carnívoro. Ele apenas se tornou mais adaptável do que seus ancestrais a dieta com carboidratos. Mas adaptação não te dá licença poética para ignorar completamente a biologia dele. E quando você entende isso, muda como você escolhe a alimentação,
como você interpreta rótulos, como você cuida da saúde do seu cão. Sabe aquela batatinha frita que você está comendo e ele sentado te pedindo? Então...
Espero muito que você que ler esse artigo até o final realmente entenda que o cão está prezo as suas escolhas. Ele vai comer o que você der pra ele. Ele não pode escolher sozinho, e isso tem impacto enorme na saúde, qualidade de vida e longevidade dele. Por isso eu sempre digo: faça por ele o melhor que você puder, seja o que for, mas que seja o melhor que você puder fazer, simplesmente porque ele não tem nenhuma opção além do que você oferecer pra ele. E eles merecem o nosso melhor sempre.
Fontes usadas para este artigo.
Axelsson, E. et al. (2013). The genomic signature of dog domestication reveals adaptation to a starch-rich diet. Nature.
Coppinger, R., & Coppinger, L. (2001). Dogs: A New Understanding of Canine Origin, Behavior and Evolution.
Mech, L. D., & Boitani, L. (2003). Wolves: Behavior, Ecology, and Conservation.
Case, L. P. et al. (2011). Canine and Feline Nutrition.
National Research Council (2006). Nutrient Requirements of Dogs and Cats.




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