O que eu aprendi sobre cães campeões lendo "breeding better dogs" (criando cães melhores).
- Rita Izabel de Oliveira
- 30 de jan.
- 7 min de leitura
Para quem não sabe, ou não me conhece, meu começo na cinofilia não foi direto na criação - eu comecei nas exposições. Comecei com a Vega, que na época era jovem de tudo, com seus 15 meses. Pernalta, magrelinha, sem o pelo lindo que ela tem hoje. Mas já era toda charmosinha e feliz em pista (ganhou um melhor jovem lambendo uma juíza gringa). E foi justamente ver esse charme e esse encantamento dela que me fez me apaixonar por exposições, e acabar entrando de cabeça no mundo da criação. Fizemos um post pra falar sobre isso, leia aqui.

Então não me entendam mal, nada do que eu vou falar aqui é uma crítica a cães campeões (até porque, os meus cães são), assim como não é uma crítica as exposições e a cultura que elas criam: eu sou apaixonada e respiro esta cultura. Eu quero falar sobre algo que aprendi com o livro Breeding Better Dogs (deixo a referencia no final do artigo), mas que também já havia discutido essas mesmas questões com outros criadores, veterinários, etc.
A primeira grande mensagem do livro é: nem todo cão campeão deveria reproduzir.
Eu sei. Parece quase um sacrilégio dizer isso. Esta frase causa desconforto — especialmente no mundo das exposições. Pra mim está dificil até escrever isso, porque é uma opinião bem forte, mas o livro me ajudou a absorver esse racional, não como opinião pessoal, e sim como raciocínio técnico — e, principalmente, ético.
A conta a ser feita para de fato considerar um cão para a reprodução ou não é bem mais complexa que isso (se fosse só conseguir o titulo de campeão, seria até fácil), mas existem muitas variáveis envolvidas na conta.
Começando pelo fato de o juiz de exposição avaliar o momento do cachorro: o juiz dá uma opinião no cachorro que ele está vendo naquele momento, conforme o cachorro é apresentado. Cinco minutos de pista não definem o quão bom um cachorro será para o futuro de sua raça, só fala sobre o que o cachorro aparenta ser naqueles cinco minutos de pista. Um juíz de exposição só tem o poder de avaliar o que é visível pra ele no momento da avaliação. Existem coisas que passam batido: como problemas de saúde e temperamento por exemplo.
E vamos combinar que seria um peso muito grande dar a um juíz (que não consegue ser especialista em todas as raças pelo simples fato de ser humanamente impossível) o peso de definir quem é bom para a criação e quem não é. Além de ser uma avaliação apenas daquele momento do cachorro e apenas do que é visível, os juízes também são seres humanos, que podem sim errar.
Ainda seguindo essa linha, o livro define que um bom cão para reprodução é aquele que consegue imprimir boas características em seus filhotes. E sim, pode acontecer de um cão campeão não passar suas boas características adiante (inclusive, isso acontece com mais frequência do que parece). Isso significa que ser campeão não determina a contribuição que esse individuo vai poder dar para a raça no futuro.
A confusão mais comum: ganhar títulos x melhorar a raça. É muito fácil confundir as duas coisas: sucesso em pista não significa contribuição real para o futuro da raça. Um cão campeão venceu naquele contexto específico: naquele dia, sob aqueles juízes, contra aquele grupo de concorrentes. É por isso inclusive, que para um título de campeonato, o cão precisa ser avaliado por diversos juízes diferentes, procurando uma opinião consistente entre eles. Mas ainda assim, a opinião dos juíses tem sim um fator subjetivo envolvido.
O livro é muito claro em um ponto que pouca gente gosta de ouvir: títulos medem aparência e apresentação — não medem o que aquele cão vai deixar como herança. E criar cães melhores é sim sobre a prole (os filhotes) e não sobre o indivíduo.
Ao longo da leitura, uma ideia fica cada vez mais evidente: criação responsável é um jogo de quebra-cabeças, com muitas peças sem encaixe perfeito. O criador deve procurar as peças com o melhor encaixe possível (até porque, não existem peças perfeitas). As peças são os fatores genéticos do cão - estrutura, saúde, beleza, temperamento. E os melhores criadores são aqueles que melhor vão conseguir encaixar essas peças, tendo como resultado filhotes cada vez melhores (mas ainda sem encaixes perfeitos - não existe cachorro perfeito).
O livro bate muito nessa tecla: avaliar progênie (os filhotes) é mais importante do que idolatrar indivíduos. Isso muda completamente a forma de enxergar a criação e o papel de um campeão. A avaliação principal deveria ser: como são os filhotes desse cão? E esperar consistência nesses filhotes. Se ele fez um filhote bom uma vez na vida, e nunca mais depois, desculpa mas ele não é um bom reprodutor.
Continuando nessa linha, um campeão pode ser excepcional como indivíduo, mas um bom reprodutor é aquele que melhora a média da população da raça, reduz problemas conhecidos da raça e entrega previsibilidade, não surpresa a cada filhote. Na prática, isso significa que, às vezes, o cão que menos brilha sozinho é o que mais pode construir. Um bom reprodutor é o que transmite melhores características a seus filhotes, lembra?
Existe ainda um trecho do livro que me marcou muito porque ele confronta diretamente o ego humano (e o meu próprio) e me fez repensar demais, porque fala da parte que quase ninguém quer assumir: às vezes, o cão mais premiado do canil não tem a saúde ideal, não tem o temperamento mais estável, não contribui em nada estruturalmente em suas ninhadas.
E aí vem a escolha difícil: usar — ou não usar?
Breeding Better Dogs deixa claro que abrir mão de reproduzir um campeão pode ser um dos atos mais responsáveis de um criador, mesmo não sendo uma decisão fácil. Gente, é caro criar um campeão. Exposições não são baratas, handler (o profissional que apresenta o cachorro) não é barato, treinamento não é barato, manter o cão em forma não é barato. É um grande investimento criar um campeão - mas é um investimento de alto risco. Um criador responsável está disposto a abrir mão do investimento se for necessário.
Obviamente, ninguem aqui está sugerindo descartar um cachorro por qualquer detalhe que fuja da perfeição (criar é um jogo de quebra-cabeças feito de peças imperfeitas, lembra?). Mas desconsiderar questões importantes dando a desculpa que "o cachorro é campeão" é o ponto que o livro critica - e é exatamente onde a ética bate na porta.
Ainda há um outro ponto sobre campeões: o impacto que causam no COI (coeficiente de consanguinidade) médio da raça. Todos os anos, campeões mundiais são eleitos. E o resultado muitas vezes é um zilhão de filhotes que vieram do mesmo cachorro, e que vão parar em canis ao redor do mundo, produzindo mais cachorros. Um efeito dominó na genetica da raça.
Em raças pequenas, isso pode destruir em poucas gerações a saúde genética da raça, pelo simples fato que a grande maioria da população se torna parente direto ou indireto. Dados do Embark (laboratório de análises de DNA nos Estados Unidos): a raça Yakutian Laika tem um COI médio de 16% nos cães já testados pelo laboratório, ou seja, já é um numero elevado hoje. Um efeito em dominó como o que comentei acima pode ter um impacto mostruoso, revelando novas doenças na raça que jamais haviam sido percebidas.
E ainda falando sobre o efeito "campeão do mundo", para fixar características campeãs, alguns canis fazem uso de linebreeding (repetir o mesmo cão no pedigree). Não é errado fazer isso, nosso Mars possui um linebreeding de um cão que eu amo (inclusive esse foi o grande motivo para eu querer comprar o Mars). Mas esse artifício precisa ser usado com muito conhecimento e cautela.
O mesmo efeito mencionado acima pode também acontecer em um linebreeding exagerado. E também: o linebreeding serve para fixar características - em lugar nenhum está escrito que vai fixar apenas as características boas, eu diria até que estamos falando de ciências biológicas (que não são totalmente previsíveis) e não de ciências exatas.
Depois de ler esse livro, minha percepção dos campeões mudou muito. Eu parei de olhar para títulos, rankings e fotos perfeitas. É obvio que queremos e buscamos tudo isso, mas como criadora (e quero me considerar do time das responsáveis) eu passei a observar, e até mesmo dar muito mais valor a longevidade, histórico de saúde, temperamento no cotidiano, o que aparece repetidamente nos filhotes, geração após geração.
Agora, entendendo tudo isso, a pergunta deixou de ser: “Esse cão ganhou?”. E passou a ser o que realmente deveria importar na reprodução:
• esse cão é saudável ao longo da vida?
• ele mantém estabilidade emocional em diferentes contextos?
• ele reproduz cães bons com consistência, ou apenas algumas exceções?
• o que os filhos dele mostram — não na pista, mas na vida?
Criar deixou de ser sobre produzir o próximo campeão. Passou a ser sobre produzir uma próxima geração melhor, mais saudável e mais consistente. Se vier um grande campeão, obrigada Senhor! Mas a prioridade não é essa. Não mais.
Mas então, pra que serve um campeão? Eu não olho mais para os títulos de campeonato pensando nas gerações futuras. Eu olho agora como consolidação de um trabalho bem feito na criação. Ter um filhote que eventualmente se torna campeão é a cereja do bolo na criação, é saber que realmente você fez as escolhas certas, e conseguiu uma prole que representa fielmente o padrão da raça. Se esse cão será reproduzido? Espero muito que sim, mas se não for possível, tudo bem também. Exposição de cães é um esporte, e apenas um dos detalhes na escolha dos casais (e um detalhe não mandatório).
Lidar com vidas não é uma receita de bolo. É todos os dias lidar com riscos, estudar possíbilidades, muitas vezes criar pontes para colher frutos em duas ou três gerações. E se o primeiro critério da criação é pautado em títulos, talvez esse criador esteja criando errado (ou talvez ele apenas não leu o livro ainda, mande esse artigo pra ele).
E mais uma vez: isso não é uma crítica as exposições, aos títulos, nada disso. Até porque eu amo tudo isso! A crítica é usar esse critério como o primeiro ou o único critério pra embasar todo um programa de criação.
No Queens of the North, títulos importam sim. Mas nunca mais do que saúde, temperamento, consistência e futuro. Criação responsável não é sobre vencer hoje, é sobre ainda fazer sentido daqui a 20 anos. O que eu aprendi lendo Breeding Better Dogs foi simples e profundo: campeões não carregam a raça sozinhos. Quem carrega a raça são decisões silenciosas, muitas vezes invisíveis, feitas longe da pista por pessoas conscientes que querem acima de tudo um futuro saudável pras raças que criam.
A polêmica existe — e precisa existir. Mas questionar o uso automático de campeões na reprodução não é ataque: é responsabilidade. É entender que a pista mostra um recorte — e a criação exige visão ampla. Do mesmo jeito que eu não pensei sobre isso automaticamente, alguem talves também não tenha pensado. Breeding Better Dogs não ensina a criar cães famosos: ensina a criar cães melhores.
Rita Oliveira
Queens of the North

Referência: Cecere, J. T.; Sponenberg, D. P.
Breeding Better Dogs: A Dog Breeder’s Guide to Successful Breeding and Health Management.
5m Publishing, Reino Unido.




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