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O dia que eu vi o Yakutian laika trabalhando... de verdade

24 de fev.
8 min de leitura

Se você já convive com um Yakutian Laika — ou pelo menos me acompanha por aqui — você já sabe que essa não é uma raça qualquer. O Yakutian nasceu para o trabalho. Lá na sua origem, ele fazia de tudo um pouco: ajudava no pastoreio de renas, dava o alerta quando algo não estava certo, auxiliava na caça, fazia companhia e, claro, puxava trenós por longas distâncias. Um verdadeiro “cão multitarefas”.


E aí vem a pergunta que não quer calar (e que eu como criadora aqui no Brasil me faço a todo momento): como oferecer trabalho para um cão de trabalho em um país tropical, sem neve, sem renas e sem trenós? E ainda com um grande problema - a temperatura, que n'ao [e ideal para a pr[atica de esportes. A gente ama a raça, estuda, se dedica… mas o desafio está sempre ali, latindo na nossa frente.


Mesmo praticando canicross — mais brincando do que treinando de forma realmente séria, se eu for sincera — eu sempre tive a sensação de que eles podiam mais. Afinal, estamos falando de cães feitos para puxar trenós muito mais pesados do que eles mesmos, por distâncias absurdamente longas… e agora precisam se conformar em puxar uma jamanta por alguns quilômetros (coitados 😅).


Ao longo do tempo e com a convivencia com eles, fomos encontrando formas interessantes de desafiá-los: equipamentos de tração, acessórios para aumentar o esforço durante a corrida, esteiras e outras adaptações. Mas, ainda assim, algo me incomodava. Eu sentia que ainda faltava entender melhor o que realmente significa “trabalho” para essa raça.


Não é segredo pra ninguém que, por aqui, os Yaks acabaram assumindo uma função igualmente nobre: a de serem nossos companheiros mais leais. Eles estão ao nosso lado todos os dias, participam da nossa rotina, são parte da família, mudam nossas vidas. Mas, no fundo, sempre fica aquela pulguinha atrás da orelha… e todo esse potencial incrível que eles carregam? Para onde ele vai? Como eu posso estimular isso? Como posso ajudar cada Yak a expressar o melhor de si, mesmo vivendo no Brasil, tão longe do cenário para o qual a raça foi de fato criada?


Eu ainda não tenho 100% dessas respostas (na verdade, nem 30%), mas foi exatamente por isso que, quando soube que iria para a França — um país com muitos canis e, mais do que isso, com uma cultura de trabalho muito viva — algo acendeu dentro de mim. Eu precisava aproveitar essa oportunidade para conhecer esses canis de perto, ver como eles vivem a raça no dia a dia e entender, na prática, como o Yakutian continua sendo o Yakutian funcional, mesmo fora da Iacútia.


E foi assim que, na cidade de Nevers, na França, conheci duas pessoas simplesmente incríveis e profundamente dedicadas ao trabalho e ao esporte com Yakutian Laikas: a Victoire, do canil Polar Souls, e a Pauline, da equipe Reborn Promises. Passamos dois dias juntas e eu pude não só observar, mas viver de perto a rotina de uma equipe que realmente puxa trenós pelas florestas francesas — sim, inclusive como passeio turístico (vou deixar o contato aqui embaixo para quem quiser viver essa experiência também!). Mais do que me receberem de braços abertos, elas foram extremamente generosas, simpáticas e pacientes, conversando comigo com muita transparência e me explicando coisas que, até então, eu simplesmente não conseguia compreender sobre o verdadeiro significado do trabalho para essa raça.


Vic, Pauline, eu e os cães.



Passei um dia inteiro com elas. E que dia, minha gente… que intenso! Tanto que ATÉ EU trabalhei (pra calar a boca de todo mundo que acha que eu não trabalho 😅).


Começamos cedo, levando alguns cães para uma caminhada pela mata. A ideia era reconhecer o terreno, entender o percurso e, claro, remover obstáculos pelo caminho. O detalhe importante: tinha sido uma semana inteira de chuva. Resultado? Trilhas completamente enlameadas, escorregadias, em alguns pontos com possas enormes e dignas de filme do Indiana Jones. Mas, com muito orgulho, informo que sobrevivi à caminhada sem cair nenhuma vez. Podem aplaudir, por favor nos comentários.


À tarde, voltamos para o parque e aí sim começou a parte que eu estava mais ansiosa para ver de perto. Entrou em cena o carrinho adaptado — puxado pelos cães exatamente como se fosse um trenó. Pensa num negócio pesado! Só o carrinho sem ninguém já é um peso imenso, graças a Deus tem rodas! O freio segue a mesma mecânica de um freio de bicicleta, e também tem uma direção que orienta o eixo frontal de rodas para ajudar o carrinho a virar sem tombar.


Começamos então a alinhar os cães para trabalhar. E deixa eu contar uma coisa: dá muito trabalho organizar uma equipe de cães para tracionar corretamente. Tudo começa pelo aquecimento. Para evitar qualquer tipo de lesão, os cães precisam estar bem preparados antes de começar a puxar. Então é corrida atrás de bolinha, corrida para seguir a gente, corrida livre… basicamente, correr por correr, porque eles amam e ficam com os músculos aquecidos no processo. Só depois disso é que colocamos o arness, o peitoral específico para tração, pensado justamente para permitir o esforço sem machucar o cachorro.



A partir daí, cada dupla é conectada à linha — e sempre começando pelos dois cães da frente. Isso é essencial para que a linha não vire uma bagunça completa. Conforme esse processo avança, a excitação dos cães só aumenta. É impossível não perceber o quanto eles querem estar ali, o quanto estão felizes, motivados, vibrando para começar. Trabalho, para eles, é alegria pura. Toda essa preparação leva entre meia hora e quarenta minutos. Só depois de checar se todos estão bem, alinhados e realmente aptos a correr e tracionar, chega a nossa vez: sentar no carrinho, respirar fundo… e simplesmente aproveitar a vista.


Aqui, mais do que falar sobre técnica, equipamento ou treino, eu preciso falar sobre como eu me senti. Porque nada do que eu vivi naquele dia cabe apenas em explicações racionais. Na verdade, por mais que exista uma explicação racional, não foi pra mim uma experiência racional.


Passei os últimos três anos da minha vida convivendo intensamente com essa raça. Foram anos estudando o Yakutian Laika, não só como amante, mas indo cada vez mais fundo: biomecânica do movimento, história, função, propósito. Eu lia, assistia vídeos, absorvia informações… mas, ainda assim, nunca tinha vivido algo tão forte, tão real. Eu nunca tinha, de fato, presenciado todo o potencial desses cães em ação.


No primeiro minuto do passeio, eu me emocionei de verdade. Porque, ali, tudo aquilo que antes era apenas texto em algum lugar, ou um vídeo gravado por outra pessoa, de repente ganhou corpo, som, cheiro e sentimento. Eu senti, e era o vento no meurosto. Senti a potência daqueles cães puxando o carrinho. Vi com meus próprios olhos o movimento inicial, o esforço para vencer a inércia, e depois o trote mais econômico, pensado para poupar energia. Percebi o ritmo diminuir nas subidas, acelerar nas descidas. Nada era aleatório. Tudo fazia sentido.


Eu vi cães trabalhando em equipe. Colaborando. Se comunicando sem palavras. E ali, finalmente, entendi de verdade o porquê do temperamento tão amigável da raça. Aquilo não é acaso — é necessidade. É sobrevivência em grupo. É a mais pura função.


E quando o passeio ia terminar, já era noite, sem enxergar o caminho à frente e confiando completamente nos cães para nos levar de volta, eu compreendi algo ainda mais profundo: a tal da “teimosia” e a inteligência do Yakutian Laika. Não é teimosia, é autonomia. É tomada de decisão. É responsabilidade.


Séculos e séculos de seleção foram feitos para que hoje esses cães fossem capazes de se comportar exatamente assim. E agora não sou mais apenas uma estudiosa: sou testemunha.


Posso dizer, sem nenhum titubear, que essa foi a experiência mais impressionante que já tive com a raça — tanto como apaixonada, quanto como criadora. Um daqueles dias que não se apagam da memória. Um daqueles dias que mudam a forma como a gente vê tudo dali em diante. Posso dizer que a minha criação se divide em antes do trenó e depois do trenó. Esse foi, sem dúvida, um dia que jamais será esquecido.

 

Quero  muito falar de uma cadela simplesmente impressionante: a Kitsune. Ela já brilhou em exposições, recebeu avaliações excelentes e, ao mesmo tempo, faz parte do time de trenó. Mas não é só isso — ela não está ali apenas “participando”. A Kitsune lidera. É ela quem entende os comandos, quem guia os outros cães e mantém a equipe coesa. E teve um momento que me marcou profundamente: ao final do passeio, já à noite, na escuridão total da floresta, foi a Kitsune quem conduziu o carrinho de volta até o estacionamento do parque… completamente sem comandos. Ali, ficou impossível não entender, na prática, o que significa instinto, trabalho e conexão verdadeira com aquilo que ela nasceu para fazer.



Outro cão que precisa ser destacado aqui é o Hikko. Meu Deus… que cachorro. Chamar de “cão” talvez seja até pouco. O Hikko é um motor, uma verdadeira máquina de tração. Tudo nele parece existir para favorecer a melhor execução do trabalho. Assim que o arness é colocado, ele se transforma. Os movimentos ficam poderosos, firmes, quase milimetricamente precisos. Dá para sentir de longe a motivação absurda que ele carrega. E, na verdade, não é só ele — todos os cães parecem querer muito fazer aquilo.



E eu sei que alguém pode estar se perguntando: “mas como você sabe que eles querem?”. A resposta mais honesta que posso dar é: eu não sei explicar. Eu só sei. Vá lá, viva a experiência, e você vai entender exatamente do que estou falando. Eles são altamente motivados, trabalham de forma coordenada como se tivessem sido ensaiados, e mais do que aceitar o trabalho, eles pedem por ele. Pedem para puxar. Pedem para correr.


E para quem acredita que esse tipo de prática é maus-tratos, é importante dizer: ao menor sinal de dor, desconforto, incapacidade ou até mesmo se um cão parecer “enrolado” no equipamento, o passeio simplesmente para. Os humanos checam os cães. Isso aconteceu várias vezes. Paravam, observavam, ajustavam, avaliavam. Os cães não demonstram nenhum sinal de dor ou sofrimento — e, modéstia à parte, eu acredito que entendo um pouco de cachorro, eu saberia se estivessem sofrendo.

Quando não estão conectados à linha, são simplesmente cães. Cavam, correm atrás de bolinha, caçam pássaros, brincam. Vivem. E que vida eles vivem. Arrisco dizer, sem medo, que têm muito mais saúde, equilíbrio e vitalidade do que muitos cães “gordos de sofá e Netflix” por aí (e se a carapuça serviu, se culpe e não me culpe).


Essa viagem mudou completamente a forma como eu olho para os meus cães. E, sem exagero nenhum, mudou também a maneira como eu enxergo a raça. Os Yakutian Laikas têm um potencial imenso: são incrivelmente inteligentes, fortes, versáteis — mas, acima de tudo, funcionais. Nada neles é por acaso.


Quero deixar aqui um agradecimento enorme à Victoire e à Pauline por essa experiência tão generosa, intensa e transformadora. Foi um privilégio viver tudo isso ao lado de vocês. Voltei para casa com a cabeça cheia de ideias e o coração inquieto, querendo me organizar melhor por aqui para fazer mais pelos nossos Yaks brasileiros. Quero estudar, testar, adaptar e encontrar formas reais de vivenciar ainda mais tudo o que essa raça pode oferecer. Vou trabalhar bastante para isso… então, aguardem as cenas dos próximos capítulos.


E para você que tem um Yakutian Laika como cão de companhia em casa, deixo uma reflexão carinhosa: é muito fácil negligenciar essa raça. Eles se adaptam a nós, à rotina que oferecemos, ao espaço que damos. E isso torna simples demais cair na zona de conforto e não oferecer exercício suficiente, desafios suficientes, propósito suficiente. Mas vale sempre lembrar: esses cães não foram selecionados para passar a vida no sofá. Eles foram selecionados para trabalhar, correr, puxar. Para carregar mais do que o dobro do próprio peso. Para resistir, pensar, decidir.


Então, da próxima vez que você olhar para o seu Yak aí do seu lado — seu companheiro, seu amigo — tente enxergá-lo também através da história que ele carrega. Talvez isso mude um pouco a forma como você brinca com ele, como você se exercita com ele… ou simplesmente a forma como você o admira. E, às vezes, é exatamente isso que eles precisam: serem vistos por inteiro. 💙


Se você for para a França e quiser viver essa experiência, entre em contato com a Victorie no @polarsoul.yakutian.laika no instagram.

 

 

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