top of page

O que os números falam sobre a displasia?

29 de set.
8 min de leitura
Muito se fala sobre displasia coxofemoral e o risco relacionado a esta doença, mas o que os números e estatísticas realmente falam sobre ela?

Nós já falamos bastante sobre displasia nos nossos canais de comunicação: o que é, como pode se desenvolver, quais fatores podem aumentar ou diminuir o risco, como podemos trabalhar na prevenção e quais são as possibilidades de tratamento. Hoje, porém, quero fazer uma abordagem um pouco diferente: vamos olhar para os números. Eles vão nos ajudar a entender por que falar em “filhote livre de displasia” é muito mais complicado do que parece.


Mas primeiro, precisamos desfazer um mito. Boa parte das pessoas realmente acredita que a displasia é simplesmente uma doença genética e que, portanto, bastaria utilizar pais sem displasia para garantir que os filhotes também não terão a doença. Infelizmente, não é assim na prática. Embora a genética tenha um papel muito importante na displasia coxofemoral, ela não é determinada por um único gene, por esse motivo, apesar de ter um fator genético envolvido, não existe um teste genético capaz de identificar se um casal vai ou não ter filhotes doentes.


Por isso, mesmo quando utilizamos cães avaliados e considerados normais, não é possível afirmar que todos os seus filhotes estarão livres do problema. Os exames que fazemos hoje são simplesmente exames de imagem e não podem prometer que a combinação do casal não vai ter exatamente os ingredientes necessários para desenvolver a displasia. É justamente por isso que expressões como “filhotes 100% livres de displasia” precisam ser vistas com bastante cautela. O papel de um programa de criação responsável não é prometer risco zero, até porque isso é impossível. É reduzir o risco tanto quanto for possível.


Mas se existe um componente genético impossível de detectar, como fazer para selecionar os cães?

Atualmente, não existe um teste de DNA capaz de dizer: “este cachorro terá displasia” ou “este cachorro jamais terá displasia”.

A avaliação utilizada para a seleção reprodutiva é feita principalmente por meio de exames radiográficos das articulações, realizados quando o cão já atingiu idade adequada para uma avaliação definitiva.


A OFA, por exemplo, recomenda a avaliação dos quadris a partir dos 24 meses para sua certificação definitiva, já o Clube Russo da Raça Yakutian Laika aceita testes a partir dos 18 meses. Também existem avaliações preliminares realizadas em cães mais jovens, mas elas não substituem a avaliação na idade adulta, isso é importante porque o quadril de um filhote ainda está em desenvolvimento; um exame realizado precocemente pode fornecer informações úteis, mas não significa que estamos olhando para o resultado definitivo daquele cão. E mesmo com os melhores exames possíveis, ainda poderão nascer filhotes mais sucetíveis a desenvolver displasia.


“Mas então os exames dos pais não garantem que os filhotes nascerão sem displasia?”

Não, e aqui é que entram os números. Os dados históricos da OFA mostram claramente que existe uma relação entre a qualidade dos quadris dos pais e o risco de incidência da doença observado em seus filhotes. Em um grande levantamento com centenas de milhares de descendentes, cães provenientes de pais com melhores classificações de quadril apresentaram, em média, menor frequência de displasia.

Acasalamento

Risco aproximado de HD nos filhotes

Excellent × Excellent

~3,6%

Excellent × Good

~6,1%

Good × Good

~9,6%

Excellent × Fair

~9,6–12,3%

Good × Fair

~14,6–17,5%

Fair × Fair

~19,8%

Excellent - FCI HD A - Sem alteração. Good - FCI HD B1 - Com alterações leves. Fair - HD B2 - Saudável com alterações.


Esses números são extremamente interessantes, pois mostram duas coisas ao mesmo tempo:

1) Quanto melhores os quadris dos pais, menor tende a ser o risco nos filhotes;

2) mas o risco nunca chega a zero (e essa é a parte que justamente fica esquecida pela maioria).

O fato de um exame não oferecer uma garantia de 100% não significa que ele não tenha valor.

Pelo contrário: os dados da OFA mostram que a seleção dos pais realmente faz diferença, mas seleção genética não é sinônimo de garantia absoluta. A seleção baseada na qualidade dos quadris dos pais está associada a uma redução do risco de produzir descendentes displásicos, é exatamente por isso que exames de saúde precisam fazer parte de um programa de criação responsável. Mas eles são uma ferramenta de redução de risco, e não uma bola de cristal. Além dos exames dos próprios reprodutores, é muito importante observar o histórico familiar:

  • como eram os pais;

  • como são os avós;

  • como são irmãos completos e meio-irmãos;

  • quais resultados ortopédicos aparecem na família;

  • quais características aparecem repetidamente ao longo das gerações.


Quanto maior o conjunto de informações, melhor conseguimos tomar decisões de criação. A própria OFA recomenda considerar não apenas o indivíduo, mas também pais, avós e irmãos na avaliação para reprodução.


E o que acontece quando olhamos para o Yakutian Laika?

Aqui os números ficam ainda mais interessantes: na consulta ao banco de dados da OFA utilizada como base para este artigo, havia 116 Yakutian Laikas avaliados para os quadris. Desses, 96 foram classificados dentro da normalidade, representando aproximadamente 82,8% da amostra. Entre os cães considerados normais, aproximadamente:

  • 11,2% receberam classificação Excellent;

  • 55,2% receberam classificação Good;

  • 16,4% receberam classificação Fair.

Consequentemente, aproximadamente 17,2% dos cães avaliados apresentavam alguma classificação diferente de normal. Nos cotovelos, a amostra consultada apresentava 81 cães avaliados, dos quais 77 foram classificados como normais, aproximadamente 95,1%.


À primeira vista, esses números parecem bastante confortáveis, mas é justamente aqui que precisamos ter mais cuidado. Uma estatística não é a mesma coisa que a realidade inteira, ainda mais com uma população tão pequena. Os dados da OFA são extremamente valiosos, mas precisamos entender o que eles representam d verdade.


O banco de dados é formado pelos exames que foram efetivamente realizados e registrados. Além disso, determinados resultados anormais podem não aparecer quando o proprietário não encaminha esses exames. Isso significa que não podemos simplesmente olhar para o número de cães registrados e dizer: “Essa é exatamente a porcentagem de Yakutian Laikas que têm displasia no mundo.” Até porque não é isso que o banco de dados está dizendo, ele está mostrando o que foi observado dentro daquela população avaliada e registrada.


Essa diferença parece pequena, mas é fundamental para interpretar estatísticas corretamente. Existe um conceito estatístico chamado viés de seleção, em termos simples, significa que a composição da amostra pode não representar perfeitamente a população inteira. Imagine que queremos descobrir como estão as notas de uma escola inteira, mas só recebemos as notas dos alunos que voluntariamente decidiram entregá-las: nossa média será real para aqueles alunos, mas não vai representar perfeitamente toda a escola. Algo semelhante pode acontecer com bancos de dados de saúde.


Por isso, os números da OFA são extremamente úteis para acompanhar tendências, comparar resultados e auxiliar programas de criação e seleção, mas precisam ser interpretados dentro das limitações da própria base de dados. Isso é especialmente importante quando falamos de uma raça rara como o Yakutian Laika. Se temos apenas algumas centenas de cães avaliados, pequenas mudanças na composição da amostra podem alterar significativamente os percentuais no final. Quanto menor a amostra, maior a necessidade de cautela na interpretação.


"Então essa estatística não serve?"

Muito pelo contrário. Serve — e serve muito. No mínimo, podemos afirmar que é uma possibildade realista que 17% dos cães da raça podem sofrer com displasia. Isso torna essa doença importante demais para raça e precisa ser uma preocupação real, tanto de criadores como de proprietários, mesmo antes de assumirem o compromisso com um filhote.


“Então por que não usamos somente cães classificados como Excellent?”

Essa parece uma solução perfeita: se cães com melhores avaliações apresentam menor risco, por que simplesmente não utilizar somente os melhores resultados? Porque criação responsável não é uma equação com apenas uma variável.


Quando selecionamos animais para reprodução, precisamos considerar o conjunto da saúde da população, e não apenas uma característica isolada. O Yakutian Laika é uma raça rara, com uma população mundial bem reduzida quando comparada a raças mais populares. Se simplesmente retirarmos da reprodução todos os cães que não receberam a classificação mais alta, podemos reduzir drasticamente a quantidade de animais disponíveis para reprodução. E isso significa reduzir também a diversidade genética.


O que é diversidade genética?

Diversidade genética é, de maneira simples, a variedade de genes existente dentro de uma população. Quanto menor essa variedade, maior pode ser o risco de concentrarmos determinados problemas genéticos, por isso que programas de criação responsáveis precisam buscar equilíbrio. Não basta perguntar: “Este cão tem o melhor resultado possível para quadril?” É preciso perguntar também: “O que este cão acrescenta à saúde geral e à diversidade genética da raça?”, “Como é o histórico de sua família?”.


A criação responsável exige olhar para o conjunto, não existe uma conta simples. Ciências biológicas não são exatas. Não existe uma fórmula na qual colocamos dois cães “perfeitos” e automaticamente recebemos filhotes “perfeitos”, existem probabilidades, tendências, fatores genéticos, estamos diante de uma doença de característica multifatorial, ou seja, resultado da interação entre vários fatores.


Além de falar sobre genética, é sempre importante lembrar que justamente por ser uma doença multifatorial, o trabalho não termina quando o filhote deixa o canil. A partir desse momento, começa também a responsabilidade da família: piso adequado, peso dentro do score corporal correto, alimentação equilibrada, exercícios compatíveis com a idade, desenvolvimento muscular, cuidados durante o crescimento e um ambiente apropriado fazem parte da construção da saúde daquele cão.


E existe outra parte importante dessa história toda: o ambiente. Imagine dois filhotes geneticamente muito semelhantes, um cresce mantendo um peso adequado, recebe alimentação equilibrada, tem atividade física compatível com sua idade e vive em um ambiente que não exige impactos excessivos durante as fases críticas do desenvolvimento. O outro cresce acima do peso, passa muito tempo em pisos extremamente lisos, recebe exercícios de alto impacto precocemente e tem um desenvolvimento corporal muito acelerado. Mesmo que a genética seja importante nos dois casos, o ambiente pode e vai interferir na forma como o sistema musculoesquelético se desenvolve.


A própria OFA reconhece que fatores ambientais, como ingestão calórica e nível de exercício, podem influenciar a manifestação e a gravidade dos problemas relacionados aos quadris. É por isso que eu gosto de resumir a questão da seguinte maneira: a genética influencia o risco, mas o ambiente cria expaço para a genética aparecer. A genética pode aumentar ou diminuir uma probabilidade, mas ela não vai criar uma imunidade absoluta.


E é justamente aqui que entra a responsabilidade e a honestidade: um criador responsável não precisa prometer o impossível, mas ele precisa ser capaz de explicar: “Eu fiz tudo o que estava ao meu alcance para reduzir o risco.” Mas também precisa ter a honestidade de dizer: “Mesmo assim, existe um risco residual.” Isso não significa que o trabalho de seleção tenha sido inútil, pelo contrário: significa compreender como a ciência funciona.


Então qual é a verdadeira mensagem dos números? SIM, exames fazem diferença, seleção genética faz diferença, histórico familiar faz diferença, manejo inicial faz diferença. Mas nenhum desses fatores, isoladamente, é capaz de oferecer uma garantia absoluta quanto a displasia. O trabalho do criador responsável é utilizar o máximo de informação disponível para reduzir riscos geração após geração. Nosso compromisso, enquanto criadores, não é produzir uma promessa de risco zero. É estudar, testar, acompanhar, aprender com os resultados, conhecer nossas famílias, tomar decisões responsáveis e trabalhar continuamente para que cada geração seja melhor informada que a anterior.


Porque criação responsável não é prometer que nada de ruim jamais acontecerá, mas sim fazer tudo o que está ao nosso alcance para que a probabilidade de acontecer seja cada vez menor. E ter a honestidade de reconhecer que, mesmo fazendo tudo certo, a biologia ainda pode nos surpreender. E tem algo que muitas vezes esquecemos: a biologia não trabalha com garantias.


Fontes:

OFA — Hip Dysplasia: classificação, fatores ambientais e sistema de avaliação.

OFA — Hip Grade Details: definição de Excellent/Good/Fair, Borderline e graus de displasia.

OFA — Preliminary Evaluations: avaliações antes dos 24 meses.

OFA — Basic Breeding Recommendations: dados dos 490.966 descendentes e recomendações de seleção.

Keller et al., The Veterinary Journal: análise estatística dos 490.966 descendentes.

Schachner & Lopez: revisão científica sobre diagnóstico, prevenção e manejo.

Fels et al. / revisão genética: hereditariedade e natureza poligênica da displasia.

Merck Veterinary Manual, revisão de 2025: fatores hereditários, crescimento, nutrição e exercício.

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page