A Magia do Mundial de cães
- Rita Izabel de Oliveira
- 11 de jun.
- 7 min de leitura
Tudo o que vi e vivi ao participar do Mundial de Cães de 2026, em Bolonha na Itália.
É a realização de um sonho: estar em um mundial de cães. E eu posso dizer que da série "sonhos", esse é mais um que a criação de cães me deu a felicidade de realizar.

O universo das exposições de cães pode parecer um mundo complexo e distante para quem vê de fora mas, na sua essência, é uma grande celebração da história, da saúde e do propósito de cada raça de cães. Cruzar o oceano para participar do World Dog Show (WDS), a exposição mundial de cães, é como ir às Olimpíadas da cinofilia. A edição em Bolonha, na Itália, reuniu mais de 30.000 cães, mais de 400 raças, todas circulando pelos pavilhões ao longo do evento, trazendo as famílias caninas mais importantes de todos os continentes.
Para mim, pisar ali foi uma experiência que transformou minha visão sobre a criação, e eu pude viver isso usando três "chapéus" diferentes: como uma visitante maravilhada, como uma criadora em busca de conhecimento e como expositora sentindo a emoção das pistas.
O primeiro grande choque cultural que tive em Bolonha foi o tamanho e a organização impecável do evento. Obviamente seria um evento muito maior que tudo o que vi no Brasil - aqui a maior exposição que presenciei foi para 850 cães, mas algumas diferenças são de fato, culturais.
Aqui no Brasil, nós, criadores, somos muito resilientes. Nossas exposições costumam acontecer em espaços abertos, sujeitos ao sol forte ou à chuva (inclusive, já vivi os dois cenários pessoalmente), e sem muito controle de temperatura. Na Itália, encontrei pavilhões enormes, totalmente fechados e perfeitamente climatizados. Esse detalhe muda tudo: o ambiente fresco é essencial para o conforto de cães com bastante pêlo, como os nossos Yakutian Laikas, e permite que os animais descansem tranquilamente e as pessoas possam apreciar o evento sem desgaste físico e ajuda a diminuir a quantidade de material que precisamos levar para a exposição, como ventiladores por exemplo.
Outra diferença fascinante e muito visual é o que chamamos de "acampamentos". No Brasil, os acampamentos são isolados das pistas. Na Europa, ao invés de ficarem isoladas, as equipes montam verdadeiras bases ao redor das pistas de apresentação (os ringues). Eles organizam suas tendas, mesas para escovar os cães (o famoso grooming), caixas de transporte confortáveis e cadeiras de descanso, criando pequenas vilas que funcionam durante todo o dia. É muito bonito de se ver, pois cria uma comunidade vibrante e acolhedora, onde as pessoas conversam, trocam experiências e observam os cães a poucos metros de onde estão sendo julgados. Inclusive, eu bebi prosseco com um grupo de criadoras - Thanks Perla!!!
A Emoção de Entrar em Pista
Falando em julgamento, há uma característica muito especial nas pistas europeias que tocou o meu coração e que merece ser explicada para quem não vive esse meio. No Brasil, e em muitos outros lugares, a grande maioria dos cães é apresentada por handlers profissionais. O handler é um especialista contratado e treinado para guiar, posicionar e exibir o cão da melhor forma possível para o juiz. Eles fazem um trabalho incrível, mas a dinâmica na Europa é diferente.
No Mundial, notei que a grande maioria dos cães europeus são apresentados pelos seus próprios criadores ou proprietários. Ver a pessoa que ajudou aquele filhote a nascer, que o alimentou e o educou todos os dias, correndo com ele na pista, traz uma emoção completamente diferente para o evento. O cão não está apenas obedecendo a um comando profissional; ele está trabalhando em parceria com o seu humano de confiança. Isso reforça uma filosofia na qual acredito profundamente: a convivência diária e o amor construído na rotina de casa são a base de tudo, brilhando de forma muito genuína quando o cão entra na pista de exposição. Isso me faz reforçar uma crença que eu já tinha: eu nunca vou deixar de apresentar meus cães, mesmo que algum seja apresentado por um handler, eu sempre apresentarei meus próprios cães.
Encontro com Nossos Ídolos
Alguns cães eu tinha profunda admiração de longe, por fotos. Não sabia como eram pessoalmente, se de fato correspondiam a tudo o que eu via deles. Caminhar por aqueles corredores infinitos foi a chance de materializar aquilo que eu só conhecia pela internet. Pude ver de perto e tocar cães que eu amo e acompanho há muito tempo nas redes sociais, como o Secondo (Rysiek), Abduct, Raketa, Britney, Navajo, Sirio e Spirit. Ver esses animais ao vivo tira aquela camada de "perfeição" dos vídeos editados e nos mostra a beleza real e palpável da raça.
Pude observar como eles caminham de forma natural, como são gentis ao interagir com as pessoas nos acampamentos e sentir a presença imponente que nenhuma câmera consegue transmitir. Foi um exercício de estar ali, 100% no momento, admirando cada detalhe físico e comportamental desses animais maravilhosos. E agora eu sei, exatamente, quais são as linhas que quero trazer para construir a nossa comunidade de Yakutians no Brasil.
A troca de experiências que não tem preço
Conversar com os melhores criadores do mundo pessoalmente é algo que não se consegue todos os dias. Pois no mundial, eu conheci e conversei com os melhores do mundo. Pude ter uma idéia de sua visão para a raça, para a criação, o que esperam do futuro e como é o cenário Europeu da criação de Yakutian Laika.
Além de uma coisa muito importante: humanizar as figuras que vemos pela internet e temos como inalcansáveis. Todos os criadores, mesmo os de excelência, são pessoas que tem seus problemas, defeitos, suas coisas particulares, suas personalidades. E cada um a seu modo são pessoas incríveis, que eu fico muito feliz por ter tido a oportunidade de conhecer. Agradecimentos especiais a Valentina, Coline, Sophie e Perla, que me ajudaram muito com os "perrengues" de trazer mais cães da Europa para o Brasil, instalalos por 3 dias em Bolonha, caixa de transporte, documentos... Vocês são anjos e nem sabem!
O Que Aprendi para o Queens of the North
Se a visitante em mim estava encantada, a criadora por trás do Queens of the North não parava de fazer anotações mentais. O Yakutian Laika é uma raça muito antiga nas regiões geladas da Rússia mas que ainda está se espalhando e se consolidando no resto do mundo. Ter a oportunidade de avaliar de perto quase 40 cães da raça no mesmo lugar foi uma verdadeira aula. Não eram apenas cães bonitos; eram os melhores exemplares do mundo na atualidade, vindos de países como Rússia, França, Polônia e da própria Itália.
Observar cães de lugares tão diferentes lado a lado foi fundamental para abrir a minha cabeça. Pude ver as linhas russas mais antigas dividindo espaço com cães europeus. Foi um momento de grande clareza sobre o que devemos esperar para o futuro e quais características precisamos buscar para melhorar a nossa criação no Brasil.
Explicando de forma simples: percebi que precisamos focar em cães um pouco mais baixos e com melhores angulações nas patas. Por que isso importa? Porque essas características físicas permitem que o cão tenha um movimento mais fluido e gaste menos energia para correr, o que é essencial para a saúde das suas articulações e para o trabalho de tração, como quando praticamos o Canicross com eles. A beleza e a sofisticação que buscamos ter no nosso canil dependem diretamente dessa saúde e dessa estrutura corporal perfeita. Volto de Bolonha com um mapa muito claro do caminho que devemos, e vamos seguir.
A Estreia com a Pequena Vênus
Em 2022, o mundial de cães foi sediado no Brasil, mas com a participação de apenas um canil. Decidir apresentar a Vênus em um mundial de cães, concorrendo com os melhores do mundo, obviamente exigiu muita coragem. Mas chegou o momento de sentir o coração bater mais rápido na pele de expositora. Tive a imensa honra de ver a pequena entrar no ringue do Campeonato Mundial apresentanda pela sua criadora, uma bebê de apenas 6 meses, vinda do excelente canil francês Oukaya Forever.
Apresentar um filhote em sua primeiríssima exposição, logo em um evento dessa magnitude, é um desafio enorme. O barulho alto do pavilhão, a quantidade de pessoas, os flashes das câmeras e o olhar atento do juiz podem assustar um bebê. A Vênus sentiu essa pressão e se apresentou de forma tímida. Mas independente disso, ela estava lá, fez sua apresentação e foi a segunda melhor fêmea filhote. Foi um momento de pura emoção, onde as lágrimas foram impossíveis de serem contidas.
O Que os Números Nos Dizem
Para entender o tamanho do nosso passo em Bolonha, é importante olhar para as estatísticas. Reunir quase 40 Yakutian Laikas em uma única exposição mundial mostra o quanto a raça está crescendo de forma sólida e ganhando apaixonados pelo mundo afora. Acompanhar quem foram os grandes vencedores nos ajuda a entender de forma prática qual é o padrão de beleza, saúde e movimentação que os juízes especialistas estão buscando atualmente.
Abaixo, de forma simplificada, os principais títulos disputados no evento, julgados pela juíza Dauvet Paryfra:
Best Puppy (Melhor Filhote): A categoria das grandes promessas para o futuro, onde nossa pequena Vênus deu seus primeiros passos.
AMAZING SEX ON THE BEACH FREE SPIRITS OF SAKHA - Melhor Macho Filhote
PRIMA CLASSE TILDA THE SPIRIT OF SACHA - Melhor Fêmea Filhote
Best Junior (Melhor Jovem): Onde avaliamos o desenvolvimento dos cães que estão saindo da adolescência e chegando na fase adulta.
POLAR SOULS AWE NAVAJO REBORN PROMISES - Melhor Macho Jovem
ARCTIC LIGHT OF THE NIGHT - Melhor Fêmea Jovem
Best of Opposite Sex (Melhor do Sexo Oposto): O melhor cão do sexo oposto ao grande vencedor, também premiado por sua qualidade excepcional.
TESTVALKYRIE TZAMOS DES LEGENDES DE RETZ - Melhor Sexo Oposto (fêmea)
Best of Breed (Melhor da Raça): O cão que mais se aproximou da perfeição física e do movimento ideal descrito no padrão oficial da raça.

OUKAYA FOREVER UNIQUE SECRET OF-MY SPIRIT - Melhor da Raça e Campeão Mundial
Nota para consulta: Para quem gosta de se aprofundar, ver as árvores genealógicas (pedigrees) dos vencedores e conferir todos os números detalhados de machos, fêmeas e juízes da exposição, os resultados ficam disponíveis publicamente. Clique aqui para acessar os Resultados Oficiais do WDS Bologna (FCI/ENCI) e conferir a lista completa de ganhadores
Voltar para casa, para a quietude da nossa vida no interior e para a alegria da nossa matilha, tem um sabor especial depois dessa experiência. O World Dog Show em Bolonha não foi apenas uma viagem incrível; foi uma escola intensiva sobre cães e sobre Yakutian Laika. Tudo o que vi e aprendi naqueles pavilhões italianos agora faz parte do nosso dia a dia, ajudando a guiar os próximos passos do nosso trabalho com muito mais base, respeito e amor pela raça.
Não percam os proximos capítulos!










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